segunda-feira, 11 de novembro de 2019

EJA em Movimento realiza seu 5o. e mais participado Encontro

Mesa de Abertura
Realizou-se, nos dias 7 e 8 de novembro, próximos passados, o 5o. Encontro EJA em Movimento, nas dependências do Centro de Educação, da UFRN. O evento bateu novo recorde de inscritos em relação aos anos anteriores. Desde 2014 (ano da primeira edição do evento), quando 207 pessoas se inscreveram, o número de inscritos sempre tem crescido, alcançando, ano passado, o número recorde de 277 inscritos, e na edição deste ano, o extraordinário número de 326 inscritos. Em termos de participação efetiva, tivemos uma média de 160 participantes, considerando as diversas atividades que tivemos durante os dois dias de evento.
Promovido pelo Projeto EJA em Movimento, em parceria com o IFRN - Campus da Zona Leste, o 5. Encontro EJA em Movimento foi absolutamente exitoso em seus objetivos de se constituir em espaço aberto para a reflexão política e pedagógica acerca das questões que afetam a realidade da modalidade EJA. A programação que estruturou as atividades do encontro esteve totalmente atenta e coerente com esses objetivos.
Profa. Êda Luiz, em diálogo com a plateia.
Nesse sentido, na quinta à tarde, tivemos o privilégio de conversar com a profa. Êda Luiz, coordenadora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos Campo Limpo, escola exclusiva para a modalidade EJA, da rede pública de São Paulo. Na oportunidade, pudemos conhecer os princípios que estruturam aquela experiência que é, hoje, uma das referências em termos de gestão e de práticas curriculares adequadas à modalidade EJA. A palestra da professora foi gravada em vídeo e em breve estará disponível para quaisquer escolas ou coletivos de professores de EJA que pretendam assistir e fazer uma discussão em torno do seu conteúdo.
Apresentação teatral de estudantes de EJA de Macaíba
Nessa mesma tarde, duas oficinas foram ministradas: "Jogos Matemáticos na EJA", coordenada pela profa. do SESC/RN, Syham Kafka, e "Poéticas e Artes Corporais", coordenado pela profa. Claudete dos Santos, da Secretaria de Educação de João Pessoa e da Paraíba.
Grupo da Oficina de Jogos Matemáticas
Na noite da quinta, fomos presenteados pela apresentação teatral "O Caso do Espelho" por um grupo de estudantes de EJA de uma escola da rede pública municipal de Macaíba, após o que, tivemos a abertura formal do evento. A partir das 19h45min,  tivemos outro privilégio que foi o de conversar com a profa. Maria Clara Di Pierro, da Universidade de São Paulo, que é uma das principais (senão a principal) referência nacional de pesquisa em políticas públicas para a EJA. Di Pierro refletiu conosco sobre o processo de redução de matrículas na EJA que assistimos em escala nacional, particularmente depois da modalidade ter integrado o FUNDEB. A professora trouxe não apenas dados sobre a situação da EJA nas políticas mais recentes da União, mas provocou os presentes sobre os desafios que estão postos no tocante à mobilização da demanda para a modalidade, a articulação entre os entes federativos em face da ausência de políticas do MEC para a EJA e a luta pela implementação de um FUNDEB permanente.
Profa. Maria Clara Di Pierro
No dia seguinte, a maior parte dos participantes se concentrou em compor os grupos de Relatos de Experiências, onde tivemos a oportunidade de conhecer atividades desenvolvidas por colegas atuantes na EJA, socializando suas reflexões a partir de suas próprias práticas. Momento rico de mútua qualificação das reflexões acerca de nossas práticas docentes, a partir das exposições de colegas.
Na sexta à noite, o cansaço não nos abateu para discutir a difícil conjuntura da modalidade EJA em nosso Estado, em face da ausência de uma política nacional para a modalidade e a crescente queda nas matrículas na EJA, tanto nas redes públicas municipais como na rede pública estadual. Para discutir o assunto, tivemos a presença da profa. Liz Araújo, subcoordenadora de EJA da Secretaria de Estado da Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, a qual apresentou um diagnóstico de como está a EJA na rede pública estadual e indicou os desafios postos para a promoção do direito à educação para jovens e adultos pouco ou não escolarizados, como a ampliação do acesso, o não fechamento de turmas e as disputas de visões sobre a EJA, dentro da SEEC/RN. Já a profa. Sirleide Dias, coordenadora do Fórum Estadual de Educação ressaltou a importância de que se busque materializar as estratégias previstas no Plano Estadual de Educação para o cumprimento das metas que estão presentes lá.
Ao final do evento, o professor Alessandro Azevêdo saudou os presentes pela participação, colocando o Projeto EJA em Movimento à disposição de todxs para a continuação das discussões havidas durante o evento, nas reuniões mensais que o Projeto realiza, bem como na colaboração na mobilização de professores para ações que possam materializar novos horizontes para a modalidade EJA. Convidou, então, todxs que quiserem participar do Projeto a fazerem contato via o email ejaemmovimento@gmail.com, pelo Grupo do Facebook (facebook.com.br/ejaemmovimento), por este blog ou pelo número de zap (996071267).

domingo, 27 de outubro de 2019

5o. Encontro EJA em Movimento oferecerá Oficinas Pedagógicas: inscrições abertas

O 5o. Encontro EJA em Movimento, que acontecerá nos dias 7 e 8 de novembro, além de comportar palestras, mesa redonda e relatos de experiências, oferece, também, oficinas pedagógicas, desenvolvidas por professore(a)s atuantes na EJA e que se dispuseram socializar suas experiências e saberes no formato de Oficinas Pedagógicas, engrandecendo e enriquecendo nosso evento.
Nesta edição, teremos duas Oficinas. A primeira tem como objetivo colaborar com o processo de ensino-aprendizagem relativo ao Ensino da Matemática e áreas afins e será desenvolvida em duas fases (totalizando 8h), oportunizando aos participantes, um momento lúdico na produção de jogos, com materiais de largo alcance. A proposta é que tudo o que for produzido durante as atividades possam, posteriormente, ser utilizados pelos participantes em suas atividades profissionais. Esses recursos, além de contribuírem com o processo de socialização, protagonismo e apropriação do conhecimento dos alunos, também contribuirão com o aperfeiçoamento contínuo dos professores. A oficina é uma síntese de um processo formativo ocorrido durante 1 ano, com os Professores de Educação de Jovens e Adultos do SESC. A oficina será ministrada pelas professoras: Syham Kafka Vitorino de Oliveira e Wristelia Ribeito da Silva Delfino, durante os dias 7 e 8 de novembro, entre 14h e 18h, na sala 302 – Bloco de Aulas do Centro de Educação. Para se inscrever nesta oficina, acesse https://forms.gle/tEWUbMPy2ozurwGs7.
A segunda oficina denomina-se “Poéticas Corporais e Expressões Teatrais na EJA” e consiste na apresentação (teórica e prática) de técnicas, procedimentos e estratégias pedagógicas que possam ser aplicadas nos processos de criação cênica desenvolvidos na EJA, capazes de atender às especificidades e a diversidade que caracterizam os sujeitos educandos jovens, adultos e idosos inseridos nessa modalidade educacional e, assim, gerar conhecimento que leve à aprendizagem, convergindo-a à realidade sociocultural dos discente, ampliando-a e tornando-a significativa. A Oficina será ministrada pela Profa. Claudete Gomes dos Santos (SEECT/Pref.Mun.João Pessoa-PB), no dia 7 de novembro, entre 14h e 18h, na sala de Multimeios 2 – Centro de Educação. Para se inscrever nessa oficina, acesse: https://forms.gle/wGny2wXSSbe6CtPK8
Com essas oficinas, o Projeto EJA em Movimento mantém seu compromisso com a concepção que entende a formação de professore(a)s atuantes na EJA como um processo que nasce ou tem sua direção determinada pela emergência das reflexões que os próprios profissionais realizam no no seio dos espaços escolares e que devem ser socializadas em espaços compartilhados com os próprios pares.
Para ver a programação completa de nosso evento, acesse: https://ejaemmovimento.wixsite.com/vencontro. Lembrando algo importante: é tudo gratuito.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Segunda Chamada: o ensinar na EJA envolve sensibilidade e humanização da prática pedagógica (reflexões sobre o 2o. capítulo da minissérie)

Por Edkalb Mariz

Uma minissérie que mexe com o imaginário do professor ou futuro professor da EJA, nos levando a duas situações: para os que já estão atuando nessa modalidade de ensino, nos faz perceber que nosso trabalho diário, nossa prática docente, só tem sentido na vida desses alunos, se conseguirmos fazer da sala de aula um lugar de discussões voltadas para os problemas que enfrentam diariamente, como desemprego, preconceito social, racial e violências de todos os tipos, em virtude da orientação sexual, ou identidade de gênero, que fogem ao dito “padrão” cobrado e imposto pela sociedade.
Então, como professores dessa modalidade, temos que nos dar conta que ensinar na EJA é uma oportunidade de nos vermos com habilidades de desenvolver práticas pedagógicas que transformem, envolvam e encantem jovens, homens e mulheres, que vivem uma vida de desespero e desamparado social. São vítimas dos estigmas, rótulos e depreciações oriundos daqueles que vivem numa bolha, desfrutando de benesses (ou do básico que enquanto seres humanos devemos ter), que os excluem, marginalizam e ainda, os invisibilizam.
A outra situação, que podemos também projetar, diz respeito a quem for atuar futuramente nessa modalidade. Muitos, quando chegam - penso nesse momento, em muitos dos estagiários que recebo por ano -, chegam cheios de sonhos, idealizando um modelo de sala de aula, de escola pública, e  principalmente, de alunos dóceis, disciplinados e envolvidos com o processo de ensino aprendizagem.
No entanto, de repente, se deparam com um outro cenário, com identidades, interesses e objetivos diversos, onde na maioria das vezes, não é um conhecimento sistemático e encaixado que desejam na escola. E por se depararem com situações que fogem com o que não aprendemos na universidade, nas aulas de didática, desvalorizam a EJA, desacreditam no seu potencial.
Alguns até chegam a comentar de que vale tanto esforço para estudar, elaborar uma aula, para quando ministrá-la, não encontrar sentido? Se sentem, portanto, inertes, no vácuo, sem verem sentido no que ensinam e para quem ensinam.
Interpretações como essa, muitos de nós fizemos, quando iniciamos nossa atuação docente na EJA. Inclusive eu. Mas, nada como acreditar na educação, no próprio professor e na sua didática, para darmos conta que a EJA é a modalidade que mais exige  de nossa capacidade de ensinar. Pois  ser professor dessa modalidade, requer muito mais do que aprendemos nos livros e “receituários” de o quê, como, por que e para que ensinar.
Lecionar na EJA é ter compreensão de Direitos Humanos, haja vista a ausência destes na vida de muitos desses estudantes. É se descontruir do machismo e perceber que este mata mulheres todos os dias , no Brasil e no mundo e, com isso, falar sobre feminicídio, feminismo e empoderamento das mulheres, diante da negação e desigualdade de gênero que sofremos.
É ainda, se sensibilizar com práticas racistas e homofóbicas que violam os direitos de muitos cidadãos e, inclusive, daqueles que estão  na sala de aula, em frente ao professor, procurando um sentindo para tantas exclusões, ausências e respeito a sua dignidade, existência do ser .
O capítulo do dia 15 de outubro, DIA DO PROFESSOR, explorou os seguintes elementos:
(1) O que se passa  pela cabeça da professora Lucia , quando decide levar para casa, uma criança, filha de uma estudante da EJA (Solange), que por falta de várias oportunidades, tem sua vida entregue ao "Deus dará", e consequentemente, sua criança, a mercê dos infortúnios da vida?
(2) Quando Lúcia vai em busca de Solange, se dá conta do que é a vida de uma mulher, aluna e mãe, que nem mesmo um teto tem mais. Então, como poderia criar um filho?
(3) Um outro retrato dessa realidade, uma professora, Sônia, que dá duro em três expedientes, para sustentar um marido grosso, estúpido, e que ainda vive às custas dessa mulher guerreira.
(4) Todos acham que trabalhar com a EJA é fácil, é só chegar, esperar que o tempo passe, a aula termine, e então, de boa, retorna-se para casa e ganha-se um salário facilmente. Mas, vê-se, de repente, o professor Marco André sentir dificuldades de entrar pela primeira vez, numa turma de EJA, turno noturno, e conseguir chamar a atenção, inicialmente, desses alunos.
(5) Eliete, professora de matemática, se espanta de ver a aluna trans, andar armada com navalha, por se sentir ameaçada pelo preconceito e violências várias que sofre todos os dias.
(6) Juarez, o pai do bebê abandonado por Solange vai à escola pegar a criança, enquanto Lúcia (a professora) pergunta a Juarez, o que aconteceu com Solange e a casa em que ela e o marido viviam.
(7) Jaci é aquele diretor duro, às vezes até carrasco, mas que, no final das contas, deixa claro ter noção de que não dá para solucionar os problemas tão sérios, cruéis  e avassaladores que cercam os alunos da EJA.
(8) Natasha revela para Lúcia que Solange deixou o marido Juarez, porque ele é um matador, faz faxina para bandido.
(9) O professor Marco André ao falar sobre o sentido da Arte para Aristóteles e interrogar os alunos sobre o que entendem por arte, vê que nenhum estava nem aí para sua aula, e prefere, estupidamente, lançar o apagador sobre o quadro.
(10) O aluno Reginaldo que se apaixona pela professora Sonia e é preso por  tentar assedia-la.
Agora pergunto: quantas  situações como essas, ou até mais ou menos complexas, não vivenciamos em nossas sala de EJA? Será que estamos sabendo dar sentido ao ensino da EJA? Ou ainda estamos trabalhando com conteúdos e livros didáticos que se distanciam de tantos problemas enfrentados por esses jovens, homens e mulheres que vencem um dia após o outro, as adversidades da vida?
Para aguçar nossa reflexão: o lugar do professor contemporâneo, e acima de tudo, da modalidade de Jovens e Adultos, é um lugar do transitório, cheio de incertezas e em constante movimento. A sala de aula nos traz surpresas o tempo todo. Fazemos um planejamento e quando chegamos para dar aula, tudo pode mudar, pois é da nossa relação e encontro com os alunos que a aula se dá.

sábado, 12 de outubro de 2019

Sobre a minissérie "Segunda Chamada" : a EJA como um lugar de reconstrução social e acolhimento dos vários sujeitos.

Por Edkalb Mariz
Professora da EJA do CEJA Senador Guerra - Caicó/RN

Parando para refletir um pouco...
Por que será que uma minissérie global que trata sobre a realidade nua e crua da modalidade EJA, tem como nome SEGUNDA CHAMADA? O que esse nome tem a nos dizer?
Por que a escola , escolhida para cenário dessa minissérie, é denominada de CAROLINA MARIA DE JESUS?
Qual o perfil apresentado sobre os alunos que fazem a EJA nessa minissérie ficção/ realidade?
Quantos papeis, identidades, vítimas de uma sociedade desigual e de um Estado ausente , uma só minissérie, numa só modalidade de EDUCAÇÃO PÚBLICA no nosso país, está sendo capaz de explorar?
 Aluna mãe solteira que desempregada, sem ter o que comer vai para a escola , a noite, com filho bebê nos braços, pois não tem com quem deixar, e precisa dessa SEGUNDA CHAMADA ( a EJA) , para poder se ver cidadã e conquistar oportunidades futuras.Essa mesma aluna, que não tem o que comer e nem dar de comer a filha, abandona a filhinha nos braços de uma professora e foje.
 Uma outra aluna, mulher trans-Natasha, que sofre preconceito, violência, agressões físicas e morais, por não corresponder ao modelo de identidade de gênero que a sociedade impõe, e espera que todxs sejam forçados a ter.
 Muitxs outrxs alunxs negrxs que na aula da professora JACI relatam que todos ou quase todos os dias , sofrem bascolejo ou são revistados pela polícia, por serem NEGRXS.
 Outros tantos alunos, que são idosos, e lá se encontram , na busca de um sentido em suas vidas, de encontrarem na junção de letra por letra , uma leitura significativa em seu dia a dia.
 Alguns outros alunos, que vão a escola, fazerem ponto de venda das drogas.
E em meio a TODAS essas realidades , eis que estar o PROFESSOR e a PROFESSORA. Verdadeiros heróis , que compreendem que ensinar numa sociedade de tantas injustiças sociais, violações de direitos, ausência do ESTADO, e inclusive criminalização de sua própria profissão, se faz presente, humano, reflexivo e ponte entre a escola, um possível projeto de vida a ser construído e vivido e as múltiplas vivências, histórias reais, de sofrimento, miséria , marginalidade social a que ELES( os alunos ) estão imersos.
Agora pergunto:
Será que o bom e melhor professor é somente aquele que diariamente está nas salas de aula do ensino regular, seguindo a receita de um livro didático, pensando numa prova de enem, e o ingresso de seus alunos na UNIVERSIDADE?
Ou será , que também devemos nos sensibilizar com a EJA, seus alunos e PROFESSORES , que buscam encontrar estratégias de ensino, que possibilitem homens , mulheres, jovens e adultos se sentirem pessoas de direitos, repensarem novos caminhos a serem seguidos, se verem como sujeitos sociais , capazes de escreverem uma nova história, dando sentido e significado as letras, palavras , frases que aprendem e ressignificam por meio das várias redes de diálogos , conhecimento e relaçoes que são desenhadas e ganham várias cores nos bancos escolares?
Ainda me pergunto: será que realmente conseguiremos compreender o sentido da EJA e a importância de sua permanência , como modalidade de ensino presencial na EDUCAÇÃO BÁSICA E PÚBLICA no BRASIL?
Ou iremos reprovar, excluir e julgar ainda mais, por não compreendermos as entrelinhas que o texto dessa minisserie e seus personagens tentam nos passar?
Que todxs aqueles que sofreram e continuam sofrendo com a exclusão e a desigualdade social, possam ter uma SEGUNDA CHAMADA, em escolas como a de CAROLINA MARIA DE JESUS( primeira mulher negra, favelada,catadora de lixo, e mãe de 4 filhos) a publicar um livro no Brasil, possibilitando o alimento do conhecimento, da inclusão social como válvulas de escape para uma sociedade que venha a respeitar a diversidade e acima de tudo, desenvolva políticas públicas para uma educação transformadora, e de qualidade para quem estuda e para quem ensina.
Aguardando o próximo episódio, semana que vem...

Veja aqui o vídeo promocional da série:


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

EJA em Movimento discute Projeto Tarralfas

Dia 25 de setembro próximo passado, o Projeto EJA em Movimento realizou mais uma de suas reuniões ordinárias e nela tivemos o privilégio e o prazer de receber o professor José Mateus do Nascimento, professor do IFRN e coordenador do Projeto de Extensão Tarralfas, que é desenvolvido desde 2017, na comunidade de Pirangi do Sul.
Na oportunidade, participaram da apresentação, junto com o professor, outros membros da equipe, como estudantes das licenciaturas do IFRN e os colegas da Secretaria Municipal de Educação de Nísia Floresta.
Foi relatado que a demanda chegou até o IFRN vindo da própria comunidade e a opção teórico-metodológica adotada pela equipe do IFRN partiu das elaborações do Patrono da Educação Brasileira, o prof. pernambucano Paulo Freire.
Assim, nos primeiros encontros, a partir do método analítico de alfabetização paulofreireano, a equipe de educadore(a)s do IFRN partiram à comunidade de pescadores para terem contato com os próprios sujeitos com o objetivo de acessarem e compreenderem as referências culturais e o universo vocabular da comunidade.
Dessas conversas surgiram 20 palavras geradoras para serem trabalhadas nos encontros, dentre elas a palavra "cachaça" apareceu como a mais citada e, por isso, foi escolhida para o início do processo de alfabetização. Inicialmente, foram trabalhadas a imagem e a maturação semântica da palavra, que gerou problemáticas como as consequências do consumo abusivo do álcool. Em seguida, na etapa da escrita foi realizada a artesania da palavra, a composição de suas letras com o uso do abecedário, a separação das sílabas e recomposição em novas palavras através dos grupos silábicos com o auxílio dos grupos alfabetizadores. Nesse processo de descoberta os pescadores indagaram se escrever seria combinar letras.
Um dos desafios para os agentes alfabetizadores foi a negação dos pescadores em irem para uma sala de aula padrão, pelo forte desejo de aprender apenas em sua localidade, por isso tiveram que adaptar as aulas na marina (local onde ficam os barcos) que só depois passaram a ser realizadas na colônia dos pescadores. As aulas foram realizadas de acordo com o que era percebido em cada encontro e as palavras geradoras eram voltadas para a realidade da comunidade como a palavra barco, por isso foram trabalhadas as suas terminologias técnicas e o significado do nome de cada barco para eles durante a realização de uma atividade de dobradura.
"Receita" foi o primeiro gênero textual escolhido que surgiu da necessidade em registrar as receitas feitas pela comunidade. Além do registro das receitas conhecidas por eles, a proposta possibilitou a identificação e criação de produtos, a escrita das quantidades que resultou em aulas de matemática sobre medidas e proporções e no processo de reeducação alimentar dos pescadores que passaram a tomar suco, por exemplo, ao invés de refrigerante nos encontros.
O projeto suscitou questões políticas e sociais na comunidade como a participação de um pescador na rádio conversando sobre o projeto, a emissão de uma nova identidade por um pescador que aprendeu seu nome, conscientização da preservação do meio ambiente a partir de uma aula de campo nos Parrachos, o papel político e social das mulheres que também pescam ou que convivem com a pesca, a produção de cartas, a inclusão digital e a ética nas redes sociais, além da gravação de um documentário na comunidade dos pescadores.
Durante a atividade algumas questões foram discutidas e aprofundadas. Uma primeira delas foi o fato de a Secretaria Municipal de Educação ter reconhecido o projeto como uma das turmas da EJA Anos Iniciais oferecido pela instituição, o que implicou reconhecer, também, um conjunto de particularidades:
(a) as aulas acontecem em um espaço não escolar (local onde os pescadores guardam as embarcações);
(b) a carga horária considera como tempo curricular tanto os momentos presenciais, como os momentos em que os pescadores se encontram no mar;
(c) o projeto acolhe as diferenças de níveis de apropriação da linguagem escrita dentro da turma, de modo que a classificação tem um caráter diagnóstico e não implica distinções dentro da turma;
(d) as diferenças entre faixas etárias não traz dificuldades pedagógicas no projeto.
Outra questão que mereceu destaque foi o fato de que o projeto produziu, como desdobramento, a formação de uma segunda turma, só de mulheres, que buscaram participar do projeto. Inicialmente, houve uma resistência da primeira turma (formada só por homens), mas, após uma discussão coletiva, onde as mulheres se posicionaram questionando a separação, aceitou-se a incorporação das mulheres na turma.
Por fim, discutiu-se o desafio do projeto problematizar e construir com a comunidade de pescadores alternativas de geração de emprego e renda na comunidade, na medida em que há um entendimento de que as fragilidades econômicas de cada um deles adquirirem e manterem embarcações próprias os impele a trabalharem de forma precária e, por isso mesmo, torna a atividade de pescaria artesanal muito pouco atrativa para os jovens da comunidade.
Sobre isso, discutiu-se a possibilidade de se tematizar essa questão na turma e na comunidade e se buscar apoio junto a outros sujeitos institucionais no sentido de proporcionar a construção de caminhos para uma outra/nova forma de organização da produção pesqueira (de preferência sob princípios associativistas ou cooperativistas) e a busca de outras/novas alternativas de trabalho para aqueles que não se interessam no ramo da pescaria artesanal.
Desde já, deixamos aqui nosso imenso agradecimento ao prof. José Mateus por ter dedicado parte de seu tempo para socializar conosco esse importante trabalho, possibilitando a todxs nós nos aprofundarmos em nossas reflexões sobre caminhos pedagógicos para a EJA em nosso Estado.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Começa mobilização em torno do 5o. Encontro EJA em Movimento

Como acontece anualmente, o Projeto de Extensão EJA em Movimento, do Centro de Educação da UFRN, em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN) - Campus Natal Zona Leste, estará realizando mais um Encontro, aberto e gratuito, onde professoras(es) atuantes na Educação de Jovens e Adultos, têm a oportunidade de realizar discussões de natureza pedagógica e política em torno dos desafios postos à essa modalidade.
A participação no evento pode ser feita com apresentação de trabalhos (relatos de experiências didático-pedagógicas consideradas exitosas, trabalhos de conclusão de cursos, resultados de pesquisas) e sem apresentação de trabalhos.
A inscrição com apresentação de trabalho pode ser feita acessando https://forms.gle/J2AMLLU1eBuwHFeN7 e DEVE SER FEITA ATÉ 6 DE OUTUBRO e a inscrição sem apresentação de trabalho acessando https://forms.gle/aTt8Repf8HUKRSFR6, até o dia 7 de novembro.
O evento tem como tema "A EJA em contextos de resistências e lutas: a garantia dos direitos à educação" e reflete a preocupação dos integrantes do grupo EJA em Movimento quanto ao cenário de ataque aos direitos, e em especial ao direito à educação, pós-golpe de 2016.
Nesse sentido, a organização do evento pretende que na primeira noite de evento, dia 7 de novembro, tenhamos uma discussão a partir de uma exposição do cenário nacional em termos de política educacional para a EJA. A segunda noite do evento, dia 8 de novembro, pretende-se discutir, com os atores institucionais responsáveis pela condução das políticas educacionais para a modalidade EJA no Estado e nos municípios, caminhos que possam proporcionar a efetivação do direito à educação para a população que demanda a modalidade EJA.
Em breve, estaremos divulgando a programação completa do nosso evento.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Projeto EJA em Movimento inicia curso de formação continuada com profissionais da EJA da rede pública municipal de Macaíba.

O Projeto EJA em Movimento, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Macaíba, iniciou um Curso de formação continuada com os professores atuantes na EJA na rede pública municipal, voltada à discussão de temas e questões que envolvem a organização do trabalho pedagógico na modalidade EJA.
A solenidade de início dos trabalhos aconteceu nesta quinta feira, dia 28 de agosto, às 19h30min, contando com a presença dos participantes do Curso e a equipe diretiva da Secretaria Municipal de Educação, além dos professores Alessandro Augusto de Azevêdo e Marisa Narciso Sampaio, coordenadores do Projeto EJA em Movimento.
O Curso, intitulado “Dialogando sobre as especificidades da Educação de Jovens e Adultos em Macaíba”, atenderá 40 professores atuantes na modalidade EJA da rede pública municipal e se realizará mediante 5 encontros, até o dia 9 de dezembro deste ano.
Se estruturando à base do diálogo com as reflexões dos profissionais sobre a sua própria prática na modalidade, o curso se propõe pensar uma reorganização do trabalho pedagógico da modalidade na rede pública municipal de Macaíba, desde um fio condutor que implique o (re)conhecimento das características do sujeitos estudantes da EJA local; o pensar sobre as atividades pedagógicas mais condizentes com essas características; a construção de propostas que estejam sintonizadas com este pensar; e, por fim, uma agenda de implementação dessas propostas.

EJA em Movimento realiza seu 5o. e mais participado Encontro

Mesa de Abertura Realizou-se, nos dias 7 e 8 de novembro, próximos passados, o 5o. Encontro EJA em Movimento, nas dependências do Centro...