terça-feira, 28 de julho de 2020

Projeto EJA em Movimento promove roda de conversa virtual sobre Interculturalidade e EJA

Na última quinta-feira, 23 de julho, às 15h, tivemos mais uma Roda de Conversa Virtual do Projeto EJA em movimento, desta vez em parceria com o Setor de EJA da Secretaria Municipal de Educação de Ceará Mirim, com a participação da Doutora em História, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gabriela Mitidieri.
O tema do encontro foi “Educação intercultural e a construção de diálogo em tempos de crise: reflexão para professores, professoras e estudantes da EJA” e contou com uma participação de cerca de 56
De acordo com a profa. Gabriela, o debate mais recente sobre interculturalidade traz a necessidade de que ocorra um diálogo sobre o decolonialismo e a apropriação deste conceito pelo(a)s professore(a)s como ponto de partida para uma incorporação dessa perspectiva no contexto de suas práticas pedagógicas. Mas o que é decolonialismo?
É de conhecimento geral que durante o período do capitalismo mercantilista, marcado pelo que ficou conhecido como as “grandes navegações”, as potências hegemônicas europeias, com a intenção de expandir seus lucros e territórios, colonizaram territórios nas Américas, África e parte da Ásia. Esse momento da história também mostra toda a resistência travada pelos povos originários em relação ao modo de vida e cultura imposta pelos colonizadores europeus que, com o passar dos séculos, tornaram-se canônicos.
A expressão “Cânone” vem do grego Kanon que significa “lei”, “norma” ou “verdade”, que está vinculado à retenção de poder e autoridade. Neste contexto, o modelo político, social, cultural e educacional europeu fez-se canônico, como modelo a ser seguido, dando origem ao que se denomina de “eurocentrismo”. Quando se dá um processo de questionamento desse cânone, confrontando a visão cultural local em relação àquela oriunda da matriz colonizadora, ocorre a decolonização.
De modo que, tanto nas práticas pedagógicas como na formação continuada de professore(a)s é necessário o movimento de identificação e reconhecimento das culturas locais para se quebrar o Kanon europeu quanto à construção do conhecimento e a disseminação da informação, para isso é necessário uma visão crítica histórica que tenha a responsabilidade de ouvir as minorias culturais que reivindica mais voz na construção do saber.
Portanto, na contramão do cânone europeu, o decolonialismo é a desconstrução da valorização europeia, principalmente na disseminação do conhecimento. Um exemplo decolonial é o movimento cultural Afrofuturismo de cunho artístico-filosófico na dança, música e texto, combinado com elementos de ficção cientifica, ficção histórica, fantasia e afrocentrismo, para criticar dilemas atuais dos negros e reexaminar eventos históricos do passado, como é o caso da escritora Afro-americana Octavia E. Butler em suas obras literárias.
Para Mitidieri as práticas pedagógicas na sala de aula precisam estar cercadas de visão crítica quanto às relações geopolíticas desiguais, distribuição de recursos, disseminação da informação e do conhecimento. Nesse sentido, é preciso compreender que a formação de um diálogo não deve ser apenas “multicultural”, mas, principalmente “intercultural”, o que enseja uma compreensão do significado de cada uma das visões que essas expressões denotam.
Se na visão multiculturalista é proposto o pluralismo cultural em uma determinada região ou localidade, sustentada na categoria da “tolerância” entre os diferentes, o interculturalismo propõe a interação das diferentes culturas, de modo a se superar a tolerância, na medida em que esta, embora reconheça a diversidade entre culturas, não permite, conceitualmente, que haja diálogo interativo entre elas. Logo, a Educação Intercultural, de acordo com Mitidieri, diz respeito às construções das novas narrativas a partir do diálogo entre diferentes povos e culturas levando em consideração suas lutas sociais contra os processos de exclusão não apenas econômica, mas também na construção do conhecimento.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O virus, a escola e a exclusão: uma tríade a se pensar (uma carta para Paulo Freire)

O texto a seguir nos foi enviado por uma professora atuante na EJA, no Centro de Educação de Jovens e Adultos Senador Guerra, de Caicó, que pediu para não ser identificada por razões pessoais.

Como se encontra, amigo e  professor Paulo freire!

Sou professora, mulher do sertão do Seridó, filha de um homem negro e uma mulher branca, e no geral, descendente de uma família simples, humilde, mas sedenta de conhecimento.
Sempre estudei em escola pública e me criei ouvindo o quanto essa escola era limitada e nos limitava, afinal, tínhamos concorrentes gigantes e mais inteligentes do que a gente, alunos dessas escolas pobres e sucateadas. E, portanto, a esses gigantes, caberiam as cadeiras da universidade.
Isso me deixava revoltada, angustiada, muitas vezes, até desestimulada. No entanto, mesmo sem nunca ter ouvido palavras como feminismo, empoderamento, eu me perguntava: “Não sou eu um ser capaz? Não posso correr atrás daquilo que os outros tem tão fácil, pela agilidade que o poder do  dinheiro lhes proporcionou? Terei que viver para toda a vida, essa segregação  social, que a todo tempo, tentam internalizar dentro de mim e de tantos e tantos outros que vivem em situação precária como eu?"
Ainda assim, não desisti. Corri atrás, li noites e mais noites sem fim, incessantemente, muitas vezes, sem nem compreender aquilo que estava a deixar meus olhos percorrer. Contudo, continuava aquela leitura, pois quanto mais páginas eram devoradas, mais eu me sentia devorando, de forma mesmo antropofágica, aqueles que me deixavam sentir pequena, pelo conforto e privilégio de classe que desfrutavam. Fazia da leitura, do folhear os livros da matemática, da química, da biologia e tantos outros, uma saga sem fim, pois assim como a desigualdade gerada pelo capitalismo me deixava - e os meus irmãos de classe social - à deriva, eu precisava provar que era capaz e, oxalá, até melhor do que eles, os pequenos burguesinhos, filhos dos poderosos burgueses.
E assim, prossegui muitos dos meus dias e anos. Perdi noites de minha vida, abri mão de momentos efêmeros, mas que poderiam ter gerado muitas alegrias. Por ventura, quando se nasce mulher, pobre e filha de um homem negro e bastardo, tudo isso junto vai para a base da pirâmide e o fardo a ser carregado não era nada fácil, pois pesava, mais e mais, dia após dia.
Mas é isso. Cresci, consegui vencer muitos obstáculos, ultrapassar muitos concorrentes, equiparar-me intelectualmente a muitos pequenos burgueses, sem desfrutar, no entanto, do poder da equidade.
Por muitas vezes, me iludi, pensando que estava desfrutando das mesmas oportunidades, afinal, pensei que a tão falada igualdade de oportunidades, era um fato, só precisava que eu fizesse minha parte para perceber que tudo dependia apenas de mim, do meu esforço, das minhas escolhas. Enganei-me. A escola do meu tempo, com os olhos que eu tinha naquela época, era perfeita, haja vista que me ensinava isso: que para eu atingir o sucesso e ser feliz, dependia do caminho que eu traçaria.
Pobre de mim, da escola e de meus professores! Todos éramos vítimas de um sistema que continuava reproduzindo o que a conjuntura política, capitalista e neoliberal injetava em nossas mentes, no currículo formal e informal. E assim seguíamos o bonde, numa trilha que nos massificava e homogeneizava, posto que a escola era apenas só uma das células opressoras, que de forma disciplinada e silenciadora, dominava nossos corpos e nossas mentes.
Diante de muitas quedas e tropeços, posso dizer que venci, cheguei a algum lugar, posto que saí de um ponto A de pobreza, invisibilidade e submissão e cheguei a um nível exponencial de A elevado a 2ª potência.
E por que evoluí, se permaneço na mesma classe A? Pois socialmente, continuo sendo pobre, mais cresci em algumas escalas: escolaridade, criticidade e o direito a ter o que antes era impossível: casa própria, um carro e uma certa estabilidade, por ter conquistado um vínculo, como professora da rede estadual. E esses critérios conquistados, o foram porque eu soube fazer as escolhas certas e, portanto, correr atrás do que a escola me ensinava, dizendo que as oportunidades eram oferecidas igualmente, no entanto não eram igualmente atingidas por todos? Não. Claro que não. Essas conquistas foram possíveis, porque por muitos momentos, tive que me desumanizar, esquecer do que era o amor, o prazer e os sonhos de uma menina-adolescente. E logo a vida me amadureceu e me tornou uma mulher. Mulher no sentido mais exaustivo que a palavra possa proporcionar. E por que tanta exaustão? Por que a escola esqueceu de me mostrar um forte recorte social que atinge a todos nessa pirâmide que mensura vidas: classe, raça e gênero.
Então, hoje percebo que tive que correr demais, dormir de menos, lutar incansavelmente, para fazer daquela frase: “as oportunidades vem igualmente para todos, mas só os que querem algo na vida, são capazes de abraça-las e seguirem em frente”.
Nossa, quantas mentiras. Quanta dosagem de alienação e ilusão foi colocada em nossas vidas. E quantos de nós não nos deixamos embriagar com essa dosagem tão forte de um remédio tão consolador. Mas, hoje, em contato com leituras críticas, libertadoras e feministas, me emancipei. E sei que as oportunidades não vem para todos, pois não nos são dadas as mesmas condições de alcançá-las. E não porque nos falte interesse pessoal e individual, mas porque o Estado não nos potencializa, por meio da equidade. Portanto, não nos possibilita concorrer, nas mesmas condições parar alcançarmos os mesmos objetivos: uma carreira promissora.
E lamentavelmente, hoje, alguns anos depois de ter concluído meu ensino médio, vejo um ciclo de desigualdade se reproduzir ainda mais com força e rigidez, pois estamos diante de um cenário de pandemia, onde essas discrepâncias se afloram ainda mais. E a educação é colocada como única saída para a superação de uma crise, não mais econômica, mas estrutural e humana. Lemos o tempo todo, nas redes sociais, clichês do tipo: "quando tudo isso passar, sairemos melhores".
Meu querido mestre, como essa mudança será possível se o acesso à informação e comunicação, que deve ser direito de todos, se limita a alguns? Se vemos estudantes de escolas públicas, em atividades remotas, sofrendo e se eximindo dos espaços virtuais das salas de aula, por não terem acesso à internet, computadores ou até mesmo ao próprio celular?
É, meu professor...está difícil, muito difícil, pensar na revolução dos livros, quando essa leitura passa, agora, a não ser materializada pelas folhas em que deixávamos nossas impressões, no passar o dedo de uma em uma, ou até mesmo destacar com um marcador de texto. Agora, temos que usar do click , do toque digital, pois o líquido, o fugaz, está alojado num universo virtual. E tudo, não mais que de repente, pode também ser atacado por um vírus, não o vírus do COVID-19, mas o vírus do espaço cibernético.
É...continuo angustiada, entediada, da mesma forma como iniciei essa carta para ti. Só que com uma única diferença: naquela fase da escola, eu era apenas uma menina jovem, instigada por sonhos que me tornariam uma mulher realizada. Hoje, sou essa mulher, não mais realizada, pois a educação dia após dia, deixa de ser um direito de todos, pelos vírus que contaminam espaços físicos e virtuais.
Até breve. Quero, logo, logo, estar contigo na revolução tão sonhada. Mas, nesse espaço além da vida, pois aqui, a coisa foi e continua como antes, dominada pelos privilégios de classe, raça e gênero.

Beijos

sexta-feira, 5 de junho de 2020

O aluno da EJA é acéfalo...então todos somos, né?

No dia 27 de maio o Projeto EJA em Movimento promoveu mais um encontro, tendo como convidado o Doutor em Educação, Veridiano Maia, para debater o seu livro recém-lançado, “O aluno da EJA é acéfalo”.
Veridiano é professor da rede pública municipal de ensino, em Natal, há 17 anos e licenciado em Educação Artística. Nesse período, teve despertado o interesse em pesquisar sobre a estrutura curricular da EJA, desenvolvendo pesquisas que resultaram em uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado.
Seu livro, publicado pela editora Appris, é decorrente de sua dissertação de mestrado e aborda os saberes dicentes presentes nos processos pedagógicos e a relação que os professores da EJA estabelecem com esses saberes, a partir de um processo de pesquisa por ele realizado junto a estudantes de uma escola da rede pública municipal de Natal, a partir do seu trabalho como professor na modalidade EJA.
Logo no início da discussão, Veridiano esclareceu que o título de sua obra tem um caráter provocativo na medida em que ela também o provocou quando a escutou pela primeira vez, proferida por um colega professor de EJA, numa conversa rápida na própria escola onde trabalhavam. Daí que o choque causado pela frase ele optou em ver acontecer também aos leitores.
Ao ouvir essa frase, nos contou Veridiano, pensou, imediatamente: “se os alunos não sabem pensar, eu também não sei”, oferecendo à reflexão pelo menos duas vertentes: uma, a de quem se coloca como ontologicamente igual ao outro, isto é, perceber-se como humano pensante e, portanto, possuidor dos mesmos recursos cognitivos que qualquer outro, inclusive o(a) estudante que está ali à sua frente. A outra vertente, se delineia no que tange a própria atividade docente, no sentido de que se o(a) estudante não exercita a reflexão sobre o mundo, sobre si, sobre os conteúdos que circulam no processo pedagógico, esse "acefalismo", certamente, é um desdobramento possível do "acefalismo" de nossas práticas.
Em sua fala (que se estabeleceu como uma rica roda de conversa) Veridiano pretendeu demonstrar que o papel do professor é de intermediador entre o conhecimento escolar e o conhecimento que o(a) aluno(a) traz dos outros contextos que frequenta, portanto a sala de aula é um local de encontro e diálogo entre educador(a) e educando(a), por isso a necessidade do caminhar do professor estar atrelado, o tempo todo, com os saberes que circulam ao redor do cotidiano do(a)s aluno(a)s, constituintes de seu processo formativo e identitário para além daquela formação propiciada pela escola.
Nesse sentido, o professor aponta à necessidade da adoção dos parâmetros da educação popular em sala de aula, com o reconhecimento de que o(a)s aluno(a)s da EJA são detentore(a)s de saberes culturais ou provenientes de suas experiências de vida que podem ser um importante ponto de partida para o processo pedagógico, sendo responsabilidade do(a) professor(a) dessa modalidade somar-se aos(às) aluno(a)s na construção de seu protagonismo na formação dos conhecimentos relevantes à sua vida.
O encontro, que contou com a participação de 22 pessoas, foi finalizado com a consideração de que as turmas da EJA tem uma grande heterogeneidade de alunos, logo não há como firmar um currículo homogêneo e estático para essa modalidade, mas, antes, buscar a conciliação entre os conhecimentos sistematizados e os saberes do cotidiano, como um caminho para se propiciar processos pedagógicos mais significativos para os próprios jovens e adultos que demandam a EJA.

SE AGENDE!!! PRÓXIMA ATIVIDADE DO PROJETO EJA EM MOVIMENTO
TEMA: O Programa EJA em Ação: uma estratégia educacional com rádio,em tempos de pandemia.
Dia 10 de junho, às 15h.
Convidadas: Profas. Fabíola Dantas, Sayonara Soares e Edkalb Mariz
Trata-se da exposição acerca de uma experiência educacional radiofônica, em realização no município de Caicó, voltada ao público da EJA.
O link de acesso para a atividade é: https://meet.jit.si/EJAemMovimento

segunda-feira, 4 de maio de 2020

EJA em Movimento realiza discussão virtual sobre texto de Boaventura dos Santos "A Cruel Pedagogia do Vírus"

No dia 29 de abril de 2020 às 15h, foi realizada uma videoconferência do projeto EJA em Movimento para o debate do texto “A Cruel Pedagogia do Vírus” escrito pelo professor Boaventura de Souza Santos, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
A videoconferência foi feita pela plataforma jitsi, tendo alcançado a participação de 36 pessoas, inclusive colegas de outros Estados do país, tendo como mediador o professor Alessandro Azevedo, da UFRN e coordenador do projeto EJA em Movimento.
A atividade teve início com uma exposição do conteúdo da obra do prof. Boaventura de Sousa Santos, momento em que se apresentou algumas reflexões quanto a atual crise pandêmica vivenciada por todxs, entre elas: (a) a ideia de que esta crise é apenas o reflexo de uma crise mais ampla e permanente, que se encontra já naturalizada em nossa sociedade e que o vírus torna evidente e pela suspensão de nossas rotinas, possibilita sua maior percepção agora. Como exemplo dessa crise permanente, temos a crise climática, resultante das atividades exploratórias que consomem cada vez mais o meio ambiente, porém, como obra do “consenso” geral, imposto pelas classes dominantes capitalistas, pouco é feito para que esta situação se resolva, tendo como efeito, que todo esse debate caia em esquecimento político e midiático.
A pandemia revela a fragilidade da vida humana, principalmente para aqueles que são invisíveis na sociedade. Essa população é composta por pessoas que vivem em condição de risco como: idosos desamparados; trabalhadores informais e de rua, que tiram seu sustento pela imprevisibilidade do cliente; indivíduos de bairros pobres que ainda sofrem de outras emergências sanitárias; sem teto que não tem como fazer um auto isolamento; refugiados. Revela também a saturação do modelo social capitalista, que coloca o lucro e a expansão comercial acima da própria vida humana.
Portando, o que podemos levar de aprendizagem deste momento? Uma possibilidade é o debate para criar uma nova civilização, que não favoreça apenas alguns na medida em que desfavorece a grande massa, mas que proporcione mais diretos que sejam acessíveis a todos igualmente.
Todas essas questões foram trazidas à discussão, e possibilitou que se fizesse a discussão de como essa crise impacta o universo de nossas atividades escolares e pedagógicas, nos impondo uma reflexão radical sobre se devemos estar pensando em retornar à "normalidade" criadora da atual situação de crise ou se precisaremos começar a discutir uma nova "normalidade" que nos impeça de vivenciar novas pandemias como esta. Para isso, nosso papel como professores está em causa, podendo reforçar a normalidade atual ou se somar na construção de outra/nova normaldiade.
A conclusão, sintetizando as contribuições, para os participantes da videoconferência é que a construção dessa nova civilização tem que ser feita a partir do debate dentro e fora da sala de aula, por meio de práticas pedagógicas que auxiliem essa reivindicação.
Como encaminhamento final da atividade, alguns dos participantes deverão confeccionar um projeto de ação educativa que, com base nessas questões, possa ser discutido e aprimorado para ser posto em prática nas escolas. O próximo encontro, em princípio, ficou agendado para o dia 13 de maio, às 15h, pela mesma plataforma.

terça-feira, 28 de abril de 2020

O que a pandemia interpela aos professores?

Por Alessandro Augusto de Azevêdo

A grande maioria dos professores que conheço estão vivenciando a experiência da pandemia do coronavírus mobilizados nas atividades à distância que, em alguma medida, têm que desenvolver. Vivenciam um momento de reorganização de tempos, espaços, procedimentos e relações, cuja origem tem nome, mas é invisível: o COVID-19.
Como educadores, a imersão nessa nova rotinização da vida de cada um pode nos conduzir a pensar, tão somente, nas novas alternativas didático-pedagógicas funcionais à condição inevitável da distância entre nós e os educandos. E, nesse sentido, estaríamos, quando muito, mitigando os efeitos desse distanciamento, possibilitando, nem mais, nem menos, que o cumprimento do que estava estabelecido anteriormente à irrupção da pandemia.
Compreender em que contexto tudo isso está se dando e os aprendizados que podemos extrair desse momento deveria ser não apenas um tarefa para consumo próprio e individual, mas fonte para nossa ação, concreta e imediata, seja agora ou pós-pandemia, como coletivo de educadores.
Nesse sentido, a leitura de um pequeno texto em circulação pelos grupos de zap, de autoria do prof. Boaventura de Sousa Santos, nos traz várias inquietações. E o que escrevo aqui é, na verdade, um exercício de diálogo com esse texto e com colegas educadores, com os quais compartilho (in)certezas e questões, dentro da rotina da educação de pessoas jovens e adultas, especialmente no Projeto EJA em Movimento, o qual tratou de incluir o texto em suas discussões tão logo ele circulou na internet.
No texto - "A cruel pedagogia do vírus" - cujo título é, por si só, provocativo, temos algumas indicações do que temos a ensinar e aprender com toda a situação gerada pelo COVID-19. A recusa em refletir sobre elas podem fazer com que deixemos passar aos nossos olhos, de dentro de nossas casas trancadas, a oportunidade em iniciar um amplo movimento de transformação não apenas individual, mas fundamentalmente, social.
Boaventura aponta que com o coronavírus temos a instituição de uma "normalidade da exceção", ou seja, a crise provocada pela pandemia apenas acentua a crise permanente sob a qual estamos enfiados desde a imposição do neoliberalismo como versão mais antissocial produzida pelo capitalismo em escala mundial. Essa crise permanente, na medida em que se revela como "permanência", ganha ares de "normalidade" se confundindo com o próprio transcorrer dos processos excludentes que promove.
Essa aparência de "normalidade" torna "invisível" (como um vírus) não apenas a crise do capitalismo instaurada pelo neoliberalismo, mas a própria percepção de sua "permanência", naturalizando seus efeitos e causas.
O vírus, assim, aparece-nos como uma alegoria cruelmente perfeita para nos revelar os invisíveis todo-poderosos com os quais convivemos de forma subordinada: o "Mercado", o "colonialismo" e o "patriarcado". Esse poder de "invisibilidade" desses todo-poderosos faz com que eles escapem das discussões que tocam a vida real das pessoas, o que põe em questão o papel dos intelectuais nisso tudo. E como professores, intelectuais que somos, Boaventura nos aponta o dedo inquiridor: estamos discutindo essas questões com o conjunto dos cidadãos ou deixando que elas sejam assumidas por aqueles que tradicionalmente "irracionalizam" essas questões, como os sacerdotes fundamentalistas que vemos espalhados em todas as linhagens religiosas ou pelos segmentos políticos que de tanto naturalizarem a crise permanente do capitalismo somente discutem soluções e alternativas nas cercas do que o próprio capitalismo coloca como possível.
Em minha modesta compreensão, o que o invisível vírus desnuda é a responsabilidade da "normalidade" capitalista pelo caos em que nos encontramos. A pandemia não é resultado de um "descuido" humano ou uma "loucura" da natureza, mas o resultado das escolhas humanas, desde séculos passados, por um determinado modo de se viver (um modo capitalista), cujos efeitos afetam o sistema biológico do planeta, dentro do qual estamos inseridos como uma (ínfima) parte.
Por isso, uma vez suspendido em escala mundial o cotidiano voraz instaurado secularmente, vemos o próprio planeta reagir e se revelar como há muito tempo não acontecia. Esvaziando ruas e indústrias, o coronavírus provocou impactos que põem em causa, fortemente, as mudanças climáticas, na medida em que, por exemplo, a emissão de poluentes despencou conforme os países foram fechando fábricas e lojas, e suspendendo a circulação de veículos nas ruas. Na China, com a pandemia, a emissão de dióxido de nitrogênio, um gás altamente poluente despencou a ponto dos satélites da NASA captarem seu quase sumiço sobre aquele país. Em Veneza, na Itália, as águas turvas dos canais de Veneza estão agora cristalinas. E na Índia, desde o final da Segunda Guerra, o topo do Himalaia não era visível como agora, face a redução da emissão de poluentes no ar.
Por fim, o vírus expõe o perigo, a fragilidade, e a falácia que foi/é a implementação da agenda neoliberal de redução do papel do Estado e de precarização dos serviços públicos, em favor da lógica do mercado, e da extração de lucro como princípio do modus operandi da economia. Todos os governos que se alinharam a essa agenda colocaram em risco a população de seus países, na medida em que tornaram ineficazes e ineficientes as estruturas públicas de acolhimento e tratamento dos cidadãos afetados pela pandemia.
Questionar este modo de viver, instaurado e tornado "normal" é a primeira e principal tarefa dos intelectuais-professores que estão comprometidos em (ainda agora ou depois da quarentena) trabalhar pedagogicamente os currículos com seus estudantes.
Nesse sentido, a pergunta que se impõe é: afinal, se a "ordem natural" que temos é, em última instância, a razão/causa do caos que estamos vivendo hoje, quando retornarmos da quarentena, desejaremos o retorno desta "ordem natural" ou precisaremos iniciar o processo de quebra-la e inventar outra? Será preciso quantos vírus para quebrarmos a ordem e inventarmos outra?
Se não entendermos que "o normal" (o capitalismo) atualmente instituído em suas várias dimensões gerou esta situação em que nos encontramos, não teremos como inventar um "novo normal" depois da quarentena. Trata-se, portanto, de colocarmos a pauta da civilização que desejamos construir não em um futuro distante, mas no agora emergente e emergencial em que estamos vivendo.
Nosso desafio, como intelectuais-professores, é conduzir nosso trabalho pedagógico a partir da pergunta: "se o normal que tínhamos antes criou tudo isso" que novo/outro "normal" precisamos? Certamente, as aulas de história podem nos dizer como esse modelo civilizatório se estruturou e o que produziu ao longo desses séculos até o que temos agora, expondo-os não como obra de uma ação misteriosa e divina, mas obra dos próprios humanos, organizados em coletivos e agindo como tais. A geografia poderá nos mostrar as diferenças abissais que se erigiram entre os países do "Norte" - forjados na espoliação econômica, humana e dos recursos naturais dos países do "Sul" - e estes últimos. A matemática poderá dimensionar as proporções dessa espoliação. As ciências físico-químico-biológicas poderão mostrar como uma determinada forma de interação que os humanos realizam com a natureza podem provocar tais e quais alterações com impactos profundos em nossa civilização. E as vastas e diversificadas linguagens artísticas seriam o canal para a profusão das particulares formas de apreensão e profusão dessas reflexões.
Esta tarefa e estas perguntas, já deveriam estar enfiadas em nossas práticas curriculares desde muito tempo, mas estão expostas agora pelo vírus, exigindo de todos nós atitude: (ainda mais na EJA, onde estão sujeitos que, particularmente, sofrem os efeitos das desigualdades desse mundo) nossos currículos, nossos conteúdos farão de conta que nada disso existiu/existe (e, portanto, não nos preparará para novas quarentenas) ou pautaremos essas questões a fim de que, junto com nossos estudantes e colegas, possamos iniciar um novo tempo, de criação de uma nova normalidade, impondo ao debate público uma outra agenda, que implica um novo modo de viver, de relação com a natureza e entre nós?

PARA TER ACESSO À VERSÃO MAIS AMPLIADA DESTE TEXTO, ACESSE: https://drive.google.com/file/d/1tFSvbqZLr2_mdR-aj2kkwDoyMFVR5gfH/view?usp=sharing

EJA em Movimento faz videoconferência para discussão de texto de Boaventura dos Santos "A Cruel Pedagogia do Vírus".

O Projeto EJA em Movimento estará discutindo, no próximo dia 29 de abril, às 15h, através da plataforma de videoconferência jitsi, o texto "A Cruel Pedagogia do Vírus", produzido pelo prof. Boaventura de Sousa Santos, do Centro de Estudos Sociais, da Universidade de Coimbra.
A iniciativa emergiu nas discussões do grupo de zap que articula os participantes do Projeto, os quais estão com suas atividades presenciais suspensas enquanto durar o isolamento social estabelecido na UFRN.
Uma cópia do texto (para acessar clique aqui) foi distribuído e os que quiserem participar deverão estar atentos porque 15 minutos antes do início da atividade, o coordenador do projeto, prof. Alessandro Augusto de Azevêdo, estará disponibilizando o link de acesso. Aqueles que não compõem o grupo de zap poderão solicitar o link ao professor através de contato por telefone (996 071 267). Quem acessar pelo telefone precisará, antes, baixar uma versão do aplicativo do jitsi, o que não será necessário para quem participar pelo computador.
Conforme o combinado no grupo, o prof. fará uma apresentação inicial do conteúdo do texto e será aberta a discussão aos participantes.
A ideia é que enquanto durar a quarentena com isolamento social, outras discussões em torno de outras temáticas possam ser realizadas. Para isso, os componentes do projeto que estão cadastrados no grupo de zap já começam a debater possíveis temas.
Uma vez encerrada a quarentena, pretendemos retomar nossas reuniões mensais e a organização de nosso encontro anual. Todo(a)s estão convidado(a)s.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

EJA em Movimento realiza seu 5o. e mais participado Encontro

Mesa de Abertura
Realizou-se, nos dias 7 e 8 de novembro, próximos passados, o 5o. Encontro EJA em Movimento, nas dependências do Centro de Educação, da UFRN. O evento bateu novo recorde de inscritos em relação aos anos anteriores. Desde 2014 (ano da primeira edição do evento), quando 207 pessoas se inscreveram, o número de inscritos sempre tem crescido, alcançando, ano passado, o número recorde de 277 inscritos, e na edição deste ano, o extraordinário número de 326 inscritos. Em termos de participação efetiva, tivemos uma média de 160 participantes, considerando as diversas atividades que tivemos durante os dois dias de evento.
Promovido pelo Projeto EJA em Movimento, em parceria com o IFRN - Campus da Zona Leste, o 5. Encontro EJA em Movimento foi absolutamente exitoso em seus objetivos de se constituir em espaço aberto para a reflexão política e pedagógica acerca das questões que afetam a realidade da modalidade EJA. A programação que estruturou as atividades do encontro esteve totalmente atenta e coerente com esses objetivos.
Profa. Êda Luiz, em diálogo com a plateia.
Nesse sentido, na quinta à tarde, tivemos o privilégio de conversar com a profa. Êda Luiz, coordenadora do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos Campo Limpo, escola exclusiva para a modalidade EJA, da rede pública de São Paulo. Na oportunidade, pudemos conhecer os princípios que estruturam aquela experiência que é, hoje, uma das referências em termos de gestão e de práticas curriculares adequadas à modalidade EJA. A palestra da professora foi gravada em vídeo e em breve estará disponível para quaisquer escolas ou coletivos de professores de EJA que pretendam assistir e fazer uma discussão em torno do seu conteúdo.
Apresentação teatral de estudantes de EJA de Macaíba
Nessa mesma tarde, duas oficinas foram ministradas: "Jogos Matemáticos na EJA", coordenada pela profa. do SESC/RN, Syham Kafka, e "Poéticas e Artes Corporais", coordenado pela profa. Claudete dos Santos, da Secretaria de Educação de João Pessoa e da Paraíba.
Grupo da Oficina de Jogos Matemáticas
Na noite da quinta, fomos presenteados pela apresentação teatral "O Caso do Espelho" por um grupo de estudantes de EJA de uma escola da rede pública municipal de Macaíba, após o que, tivemos a abertura formal do evento. A partir das 19h45min,  tivemos outro privilégio que foi o de conversar com a profa. Maria Clara Di Pierro, da Universidade de São Paulo, que é uma das principais (senão a principal) referência nacional de pesquisa em políticas públicas para a EJA. Di Pierro refletiu conosco sobre o processo de redução de matrículas na EJA que assistimos em escala nacional, particularmente depois da modalidade ter integrado o FUNDEB. A professora trouxe não apenas dados sobre a situação da EJA nas políticas mais recentes da União, mas provocou os presentes sobre os desafios que estão postos no tocante à mobilização da demanda para a modalidade, a articulação entre os entes federativos em face da ausência de políticas do MEC para a EJA e a luta pela implementação de um FUNDEB permanente.
Profa. Maria Clara Di Pierro
No dia seguinte, a maior parte dos participantes se concentrou em compor os grupos de Relatos de Experiências, onde tivemos a oportunidade de conhecer atividades desenvolvidas por colegas atuantes na EJA, socializando suas reflexões a partir de suas próprias práticas. Momento rico de mútua qualificação das reflexões acerca de nossas práticas docentes, a partir das exposições de colegas.
Na sexta à noite, o cansaço não nos abateu para discutir a difícil conjuntura da modalidade EJA em nosso Estado, em face da ausência de uma política nacional para a modalidade e a crescente queda nas matrículas na EJA, tanto nas redes públicas municipais como na rede pública estadual. Para discutir o assunto, tivemos a presença da profa. Liz Araújo, subcoordenadora de EJA da Secretaria de Estado da Educação e Cultura do Rio Grande do Norte, a qual apresentou um diagnóstico de como está a EJA na rede pública estadual e indicou os desafios postos para a promoção do direito à educação para jovens e adultos pouco ou não escolarizados, como a ampliação do acesso, o não fechamento de turmas e as disputas de visões sobre a EJA, dentro da SEEC/RN. Já a profa. Sirleide Dias, coordenadora do Fórum Estadual de Educação ressaltou a importância de que se busque materializar as estratégias previstas no Plano Estadual de Educação para o cumprimento das metas que estão presentes lá.
Ao final do evento, o professor Alessandro Azevêdo saudou os presentes pela participação, colocando o Projeto EJA em Movimento à disposição de todxs para a continuação das discussões havidas durante o evento, nas reuniões mensais que o Projeto realiza, bem como na colaboração na mobilização de professores para ações que possam materializar novos horizontes para a modalidade EJA. Convidou, então, todxs que quiserem participar do Projeto a fazerem contato via o email ejaemmovimento@gmail.com, pelo Grupo do Facebook (facebook.com.br/ejaemmovimento), por este blog ou pelo número de zap (996071267).

Projeto EJA em Movimento promove roda de conversa virtual sobre Interculturalidade e EJA

Na última quinta-feira, 23 de julho, às 15h, tivemos mais uma Roda de Conversa Virtual do Projeto EJA em movimento, desta vez em parceria ...