A EJA em contos e crônicas, parte 3
Trazemos, aqui, mais três textos literários produzidos por estudantes do nosso componente Educação de Jovens e Adultos, no período 2024.2. Os esclarecimentos sobre a forma como o trabalho foi pensado e outros textos produzidos, podem ser acessados em:
https://ejaemmovimento.blogspot.com/2025/02/a-eja-em-cronicas-e-contos-parte-1.html e
https://ejaemmovimento.blogspot.com/2025/02/a-eja-em-cronicas-e-contos-parte-2.html
Boa leitura e parabéns à turma!
O bater das asas
Por GRACIELE FERNANDES DANTAS, MARIA CLARA COSTA SOUZA, MARIA VITÓRIA GOMES DA COSTA e MILENA SOUTO DE ARAÚJO
Algumas carteiras vazias. Sentada na minha cadeira, estava cansada da semana. Ir para o terceiro turno do dia têm sido exaustivo, e digo isso por mim e pelos alunos. Alguns vêm direto do trabalho, outros, de um dia cansativo com os filhos. Minha conversa com Marinalva continua martelando na minha cabeça. Apesar de ter ficado um tanto decepcionada quando ela veio me contar que não continuaria estudando, afinal, estava tão perto de conquistar seu diploma. Decidi tentar convencê-la, será que ela não via o tanto de potencial que tinha? Por qual motivo achava que apenas aprender a ler e escrever tinha que ser seu único objetivo?Já era professora formada há anos, possuía meus sonhos esquecidos na gaveta, nas angústias, nas explorações que a profissão carrega. Conversar com os alunos, saber o que eles estão passando faz parte de mim. E ao mesmo tempo reflete como espelho tantos outros professores que passaram por esses alunos e que não tiveram o diálogo e marcas positivas no ensino de tantos Joãos, Marias e Marinalvas. Essa última, em especial, que tantas vezes vi o brilho nos olhos ao aprender a ler, ao escrever seu nome e o tempero que mais gostava de usar na cozinha: cebola.
Busco pensar em outra coisa, mas acabo voltando para a mesma: será que não sou a professora certa para essa turma? Não faço com o que os alunos reflitam sobre a importância da educação e as diversas possibilidades que podem trazer para suas vidas?
Não é segredo para ninguém que quando o professor vai dormir, o peso do cotidiano é o que vem em sua mente. O cansaço é inevitável, mas o não conseguir transformar as realidades dos sujeitos é angustiante. Pensar se falhei na minha formação e nas minhas práticas e como isso afeta a vida dos alunos é atordoante. Alunos com almas de crianças que em tantos direitos foram negados e se adaptaram no pouco, seja de comida, de segurança, de infraestrutura, de lazer, de afeto, ou seja, de vida.
Nas minhas práticas sempre busquei alfabetizá-los letrando, de modo a compreenderem a importância da leitura e da escrita no seu cotidiano. Era lindo. Os olhos atentos e transparecendo perspectivas de sonhos ainda pulsantes em seus coração. Eram como pássaros presos em gaiolas que em determinado momento veem uma pequena brecha para sobrevoar o céu azul. Marinalva estava alfabetizada. Era um pássaro. Em que momento este pássaro decidiu parar de voar? Será que alguma nova gaiola a aprisionou? Ou será, apenas, que decidiu tomar novos voos, com o que aprendeu enquanto estávamos juntas?
Desperto do meu devaneio com o toque do sinal. Vai começar a aula. Alunos entrando.
O Contador
Por ANNY CAROLINY NUNES SILVA, DANIELLY DE OLIVEIRA SANTOS, JOSÉ GUSTAVO CORDEIRO DE SOUZA e MERYELLEN DA SILVA DE OLIVEIRA
O terror da matemática na escola não é para todos. Um talento peculiar de lidar com números era uma das qualidades notórias de Felipe. Sua capacidade de resolver, rapidamente, de cabeça, desafios matemáticos em brincadeiras e jogos, desde criança, o fez ser observado pelo dono da boca, Little Tigre, que, um dia, o direcionou a se matricular na escola municipal, para desenvolver suas habilidades com números e assumir o trabalho da contabilidade dos lucros e gastos do negócio. Na verdade, convenhamos, o mais exato é dizer que ao invés de "direcionado", o menino de 15 anos foi "coagido" à matricular-se na escola, porque, de fato, voltar à escola não estava entre seus objetivos. Não fazia parte dos seus planos. "O que preciso aprender, aprendo nas ruas”.De modo que chegou à escola com um ar de desconfiado, trazendo na mochila o estigma de estar "atrasado". Mas, não é que a escola o conquistou? Não pelo ambiente, mas pela oportunidade de, nas atividades com os números e livros, poder grafar aquelas operações que mentalmente ele resolvia com desenvoltura e rapidez invejáveis. Ao mesmo tempo em que conseguia transportar para o papel suas respostas aos desafios matemáticos propostos pelo professor, seus olhos viam se configurar à sua disposição as ferramentas essenciais para organizar o caos da contabilidade da boca.
De forma muito rápida, Felipe dominou o que estava procurando. Multiplicar, dividir, somar e subtrair, já não era o suficiente e em pouco tempo já havia aprendido bem mais que essas operações básicas. As noções de percentagem e o registro em tabelas e gráficos das receitas e despesas do movimento, davam-lhe condições de pensar estratégias para a expansão do negócio.
Aí, então, tomou a decisão de abandonar a escola. De cabeça baixa ele havia entrado e de cabeça erguida a deixou, já que a escola não mais o servia, naquele momento. Dar continuidade aos estudos não o atraía. Conquistar um diploma, depois de mais alguns anos de estudos não faria diferença alguma, pensava.
Felipe seguiu sua vida no ritmo do movimento e da comunidade. Os cadernos e livros de matemática se misturavam com as drogas e o dinheiro. As habilidades, que, antes, fazia parte de sua diversão, agora havia se tornado o seu ganha pão. Ela era o cara firmeza, que lidava com dinheiro, referência para a comunidade. E àquela altura da vida, estava disposto a enfrentar o risco daquela condição ou morrer.
É difícil dizer se Felipe falhou no sistema ou se o sistema falhou com Felipe. Afinal, a escola que o acolheu também o abandonou ao se limitar somente as habilidades matemáticas, sem enxergar, por trás dos números e das equações expostas nas lousas e cadernos, a complexidade daquele menino. Felipe não precisava só de ferramentas; precisava de propósito, de um lugar que fosse verdadeiramente seu. E assim, ele seguiu pelas ruas, onde um erro custava caro e o talento virava sobrevivência. Não era o futuro que Felipe sonhou, mas talvez nem ele soubesse que podia sonhar.
O arroz queimado
Por FRANCILENE KAILANE BEZERRA REZENDE, LUIZA DA COSTA PINTO CUNHA, NICOLE DE FREITAS ROCHA e TAIZA MIRIELLE DO NASCIMENTO
Marinalva, que trabalhava como cozinheira “de madame”, queimou o arroz. E a culpa disso - afirmou ela jocosamente diante da turma - era toda minha, sua professora, que “mandava” ela ler um pouco do jornal todos os dias.Era o fim de um semestre, e ela oficialmente estava lendo, sonho almejado quando entrou na escola na modalidade da EJA. E, mesmo sabendo que a raivinha de mim era apenas um disfarce para o seu contentamento em ter se envolvido tão intensamente em uma leitura que eu havia proposto, perguntei:
– Como foi isso? O que foi que você leu que te fez esquecer até do arroz?
Marinalva, então, revelou que enquanto cozinhava, por alguns momentos teve sua atenção tomada pela leitura de uma notícia cujos minutos de leitura foram o suficiente para fazer a diferença entre um arroz delicioso e um arroz queimado.
– Professora, eu tava lendo uma notícia sobre os salários dos professores e, caramba!?, quando vi o quanto vocês ganham fiquei espantada. O salário de professor no Brasil é algo miserável, é quase o mesmo tanto do salário de cozinheira de madame!?
– Então pra quê a gente tá estudando tanto? se até quem estuda não tá ganhando nada? Comentou um outro aluno, num misto de surpresa, indignação e provocação.
Antes que eu pudesse fazer qualquer argumentação, Marinalva, percebendo o desconforto que havia causado, se pronunciou, falando que tem coisas que vão além do dinheiro que se ganha. Exemplificou que no seu trabalho ela não tem hora e nem dia de parar; que se sentia quase como um pertence da patroa, que, por vezes, manda seu motorista ir buscá-la em casa para o trabalho, em domingos ou feriados; e que, portanto, pela sua condição não tem como recusar.
— Mas nesses jornais que eu tenho lido, vi um pouco sobre direitos trabalhistas e agora eu sei que nós que o trabalho doméstico não é pra ser essa bagunça, não...
Eu amava quando Marinalva trazia os assuntos que ela via no jornal para a sala, sempre esquentava nossas discussões e deixava o ensino bem pertinho do dia a dia deles… e do meu.
Eu tinha tanto orgulho dela, que não via hora de vê-la segurando seu certificado de conclusão. Mas fui arrancada da minha bolha de idealização ao final da aula, quando Marinalva veio toda amistosa se despedir de mim, anunciando que não continuaria seus estudos no próximo período.
— Por que você vai desistir, Mari?
— Desistir? Mas eu não estou desistindo de nada. Eu entrei na escola para aprender a ler, e aprendi. Agora eu vou cuidar dos meus assuntos, dos meus direitos...
— Mas e o certificado?
— O que têm?
Depois de um tempo debatendo e tentando fazê-la mudar de ideia, a deixei ir tendo que aceitar que o certificado de conclusão não é a evidência incontestável que a escola cumpriu seu papel na vida dos sujeitos que por ela passam.
Parabéns pela iniciativa. Os textos são excelentes e possibilitam reflexões importantes acerca dos sujeitos da EJA.
ResponderExcluirBoa noite. Gostaria de encaminhar uma publicação de minha autoria sobre EJA que desenvolvo em São Paulo. Para qual endereço?
ResponderExcluirSou Luiz Otávio Santos, de São Paulo. lotavio1954@gmail.com
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